Superação, inspiração e a busca pelo empoderamento: conheça a 1ª parte da história de Luzia

É surpreendente quando nos deparamos com histórias de pessoas que passaram muitas privações na vida e mesmo assim conseguem superar tudo e “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”, como diz o samba do Vanzolini. A história que vamos contar no “Nossa Gente” desta edição é especial e celebra o Mês da Mulher. A personagem é Luzia da Silva Peixoto, 62 anos – mulher, negra, guerreira e determinada – pronomes que ela mesma faz questão de enfatizar no início dessa reportagem. Mãe de dois filhos (um já falecido), e avó de sete netos, Luzia é aposentada e atualmente reside no Jardim Ceccon, em Campina Grande do Sul.

A história dela traz uma série de acontecimentos e por isso vamos dividi-la em duas partes. Nessa primeira etapa, iniciamos contando sobre sua infância; sua vida no interior; a mudança para Curitiba e a doença fatal que acometeu o pai quando ela estava na pré-adolescência. Na segunda parte, nos concentraremos em sua família formada após seus dois casamentos; a dedicação nos estudos e posteriormente o envolvimento com a educação; incluindo seu histórico na política e as lutas pelas causas sociais. Vamos lá!

Uma infância simples no interior

Sua história se inicia na pequena cidade de Vera Cruz, no estado de São Paulo, a cerca de 500 km de Curitiba. Oriunda de uma família simples, seus pais, Luiz Peixoto e Tereza Soares da Silva, trabalhavam na lavoura de café – seus pais foram alguns dos muitos trabalhadores que atuaram na expansão da chamada “marcha do grão” por terras da região Oeste dos estados de São Paulo e Paraná. Esse movimento na agricultura da época aos poucos foi substituindo a produção de erva mate por café.

A família morava numa pequena casa de madeira, simples com três peças; dois quartos e uma sala conjunta com a cozinha. O chão da residência era sem nenhum tipo de piso ou assoalho – o chamado “chão batido” – além de uma “patente” particular – nome dado aos banheiros de antigamente. A residência era de padrão único construído para as famílias de colonos que se instalavam naquela região.

Com 10 anos, Luzia cuidava do irmão João Alcanja de 4 anos. 

Dividindo com os afazeres de casa, dentre eles o de cuidar do irmão mais novo, o João Alcanja da Silva, Luzia ajudava os pais na colheita de café. Sua função era basicamente varrer com um pedaço de madeira as folhas ao entorno do pé cafeeiro. Em seguida, ela tirava todo o material acumulado com as mãos. Sem usar luvas ou qualquer outro tipo proteção, por vezes Luzia quase foi picada por cobras e aranhas que se escondiam entre as folhas.

Luzia aprendeu cedo a ajudar a mãe nas tarefas do lar. Como toda menina que vivenciou aquela época era praticamente uma obrigação uma filha mulher saber lavar, passar e cozinhar. Não que aprender os afazeres de casa seja algo ruim, não é isso! O problema é que antigamente isso era ensinado como sendo o único espaço que uma mulher poderia ocupar na sociedade. Enquanto o marido trabalhava fora, a função da esposa era basicamente cuidar da casa e dos filhos. Se chegasse a dizer que queria estudar, trabalhar fora, e ter sua independência financeira, era quase uma afronta aos costumes da época. Essa prática contribuiu muito para a desigualdade salarial entre os gêneros até os dias de hoje.

E foi assim que Luzia cresceu. Ela foi alfabetizada, completou a 1ª série numa escola em Congoinhas. A evasão escolar era enorme naquele tempo. Assim que as crianças aprendiam a escrever o próprio nome, eram obrigadas a deixar o estudo de lado para ajudar os pais na roça. A escola em que Luzia estudava ficava em média 3h de distância de casa. Luzia conta que ia de a pé até o outro lado da cidade. “Eu saía de casa às 5h da manhã para dar tempo de chegar às 8h na escola”. O uso de calçados também era privilégio de poucas crianças naquele tempo, grande parte da infância de Luzia foi com os “pés no chão”, literalmente.

Mesmo em meio a tantas dificuldades, a família de Luzia nunca chegou a passar fome, pois conseguia se manter com o que cultivava em um pequeno espaço de terra. Lá, era possível produzir o próprio alimento como: milho, arroz, feijão, além da possibilidade de se criar animais como galinhas e porcos. Naquele tempo nem se cogitava a aplicação de programas sociais para auxiliar famílias de baixa renda. “Os governantes não ofereciam assistência como as que existem hoje. Se alguém passasse necessidade teria que pedir ajuda do vizinho”, conta Luzia.

Do Interior ao “Inferninho”: a mudança para Curitiba

Teve um momento em que setor de café começou a enfrentar dificuldades, a maior delas provocada por uma forte geada que exterminou com toda a perspectiva de produção do grão. Com o fim do trabalho, a família de Luzia se viu em apuros e foi obrigada a se mudar para Curitiba em busca de novas oportunidades. Uma das tias de Luzia cedeu parte da residência em que morava para que a família pudesse ficar até que as coisas melhorassem.

O nome da comunidade em que Luzia com a família se instalou era conhecida como “Inferninho”, no bairro Santa Quitéria. A região era deficitária de muitos serviços públicos. A impressão que Luzia tinha era que todos que vinham de outras cidades se instalavam naquele mesmo bairro para recomeçar a vida. E foi dessa forma que Luzia e sua família recomeçou uma nova história.

A Favela do Inferninho era conhecida como uma terra de ninguém”, conta Luzia. Dizem que duas ou três famílias em guerra apavoraram por anos os mais ou menos 600 moradores que ali viviam, muitos deles nortistas foragidos do campo depois das geadas das décadas de 60 e 70. Bastava o sol se pôr para que o toque de recolher fosse estabelecido no bairro. Segundo Luzia, mesmo em meio as desavenças entre essas famílias, a localidade vivia também sob o comando de um “bandidão chefe”, que ela ouvia dizer que era capaz de meter a faca em seus desafetos. Apesar disso, Luzia pelo menos nunca teve problemas com a vizinhança nesse quesito. A Favela do Inferninho foi morta e enterrada em 1982, quando os moradores criaram uma associação e refundaram a comunidade com o nome de Nossa Senhora da Paz, nome bem oposto ao de antes, em todos os sentidos.

Morte do pai

Luiz Peixoto, pai de Luzia

Nem bem chegaram à capital e a família de Luzia se viu em outro desafio; uma doença que acometeu os pulmões do seu Luiz, pai de Luzia. O diagnóstico médico: tuberculose. Seu Luiz chegou a fazer um tratamento na Lapa, mas não resistiu e um ano depois veio a falecer. A família ainda teve que pedir ajuda aos vizinhos para realizar um enterro digno do seu Luiz, já que na época o poder público não dava assistência para esse tipo de situação, e claro, o pai de Luzia não poderia ser sepultado como indigente. Luzia se recorda com muito carinho do pai. Diz ela que seu Luiz era um homem muito honesto que vivia ensinando pra ela: “Filha, nunca compre coisas que você não vai conseguir pagar depois”.

Continua

Essa história não termina aqui, tem muita coisa ainda pra contarmos sobre a vida de Luzia. Continuamos na próxima edição do Jornal União. No episódio seguinte vamos falar sobre outros momentos marcantes vividos por ela; as profissões que ela exerceu; o primeiro namorado e marido; seu envolvimento com as causas sociais, comunitárias e política. Até lá!