Carnavibe movimenta Campina e coloca município na rota de eventos pelo país

Um mega evento de música eletrônica movimentou Campina Grande do Sul no último sábado (19), e mudou a rotina dos campinenses em alguns pontos do município. Mesmo em meio a críticas e polêmicas envolvendo a liberação da festa, a Carnavibe teve estimativa de público de 12 mil pessoas na Fazenda 4 Corações, localizada próximo a Sede.

Realizado todos os anos em Curitiba utilizando como estrutura as ruínas da Usina 5, dessa vez o evento migrou para um espaço considerado “inédito” e “em meio a natureza”, conforme descreveu a própria organização da festa.

Após dois anos de pausa devido a pandemia, a Carnavibe ressurgiu neste ano no formato “open air” – ao ar livre. Para comportar o público, uma mega estrutura de som e luzes foi montada em uma área com mais de 100.000 m², o que equivalente a 12 campos de futebol. Pra se ter uma ideia, o espaço é 10 vezes maior que a estrutura da Arena Coberta, na Sede, hoje com 11 mil m².

Segundo divulgado pela organização do evento, o novo formato levou em conta o distanciamento e medidas imprescindíveis para oferecer maior segurança aos participantes, incluindo o cumprimento dos protocolos sanitários. Uma das exigências para adentrar ao evento foi o passaporte vacinal contra a covid-19. Fontes ouvidas pelo Jornal União que estiveram na festa confirmaram o cumprimento desse quesito que vinha sendo anunciado como um dos critérios para participação. 

Analisando o cenário pós-pandemia, apostamos fortemente na tendência open air, com palcos a céu aberto, em meio à natureza. O CarnaVibe 2022 já entrou para a historia não só pela representatividade do momento que estamos vivendo, mas também pela experiência que conseguimos oferecer ao nosso público. O novo endereço fez toda a diferença para o CarnaVibe”, comenta o diretor da T2 Eventos e produtor Carlos Civitate Júnior, o “Jeje”.

A 1ª edição da Carnavibe aconteceu em 2015, na Avenida Marechal Deodoro, no centro de Curitiba, e até então era considerado como um carnaval de rua. Com o passar dos anos se tornou um dos principais festivais de música eletrônica do sul país. Antes da pandemia, a festa já chegou a reunir um público de mais de 40 mil pessoas na capital, com atrações musicais reconhecidas como o Dj Alok.

Desde o planejamento à execução da festa foi necessário o envolvimento de vários profissionais. A organização do evento estima que só a Carnavibe gerou mais de 1 mil empregos diretos e indiretos nos últimos seis meses.

As atrações deste ano ficaram por conta de 20 artistas divididos em três palcos montados a céu aberto. As apresentações aconteceram simultaneamente, com direito a shows pirotécnicos e luzes. O evento teve duração de cerca de 12 horas, tendo início às 11h e término às 23h, com tolerância de 1h pós evento. Essa foi a 5ª edição do evento e foi uma produção da Planeta Brasil Entretenimento em parceria com o Grupo T2.

Trânsito

Motoristas que trafegavam pela Rodovia do Caqui no dia do evento precisaram ter muita paciência. Isso porque a grande movimentação de carros, vindos de diversas partes de Curitiba e de outras partes do país, deixou o trânsito lento em alguns trechos da rodovia, principalmente na região próxima a Sede e Araçatuba.

O trajeto entre a Sede e Jardim Paulista, que normalmente é feito em 10 minutos, levou em até 1h de espera em certos horários. “A fila de carros era gigantesca. Quem mora na Sede e tinha conhecimento sobre o evento, optou por ir pela Estrada do Cupim pra chegar mais rápido ao Jardim Paulista, como foi o meu caso. Agora quem não sabia ficou preso por quase uma hora no engarrafamento”, contou Danielle Maciel.

Havia também muitas vans e ônibus de viagem trazendo os apreciadores do evento. Muitos veículos foram estacionados às margens da rodovia, nas proximidades da estrada que dá acesso ao local.

Polêmica

Dias antes de acontecer, a Delegação Móvel de Atendimento a Futebol e Eventos (Demafe), responsável por liberar eventos dessa natureza, afirmou que não concederia autorização para realização da festa na cidade. Segundo a justificativa da Demafe, eventos com músicas eletrônicas ou ao vivo, de longa duração, conhecidos como festas “raves” contrapõe a Lei Complementar Municipal que prevê sobre o Código de Postura no artigo 49, § 6º. A lei vale para toda extensão do município.

No entanto, uma decisão liminar emitida pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), na manhã de sábado (19), autorizou a realização da festa. A decisão foi assinada pelo juiz plantonista Daniel Alves Belingieri, em favor da Planeta Brasil, responsável pela organização do evento.

Mesmo antes da liminar, a organização da CarnaVibe já tinha obtido a autorização da Prefeitura de Campina Grande do Sul para realizar a festa. A empresa responsável apresentou os documentos exigidos pela municipalidade para grandes eventos, segundo informou a Secretaria de Comunicação do município. 

Impacto no comércio

O comércio local sentiu o impacto da grande movimentação de pessoas que utilizaram serviços como postos de combustíveis e restaurantes, o que ajudou a impulsionar economicamente o comércio do município. Nossa reportagem foi buscar saber a opinião dos comerciantes, em especial aqueles que ficaram “no olho” da grande movimentação.

De modo geral, os comércios que mais se beneficiaram com a Carnavibe foram o de alimentos e bebidas. Os donos desses estabelecimentos relataram que o evento trouxe um “gás” nas vendas, como foi o caso de Luci Cordeiro dos Santos, 69 anos, dona de um restaurante na sede. Ela conta que dias antes da festa ocorrer chegou a fornecer em média 200 refeições para os técnicos que trabalhavam na montagem das estruturas da festa, e no dia do evento, houve um número de pedidos de marmitex acima do normal.

Outro comerciante que sentiu os reflexos positivos do evento foi o José Leocir de Araújo, 43 anos, dono de uma padaria no Araçatuba. Para ele, o fluxo de clientes aumentou cerca de 50%. “Houve muitos pedidos de salgados, café, além de outros itens. Muita gente vinha até aqui pedir o wi-fi emprestado para acessar o ingresso online e aproveitavam pra consumir algo aqui no local”, conta.

Teve até comerciante que aproveitou a lentidão no trânsito e o alto fluxo de veículos pra vender água às margens da rodovia. Durante a conversa, os comerciantes relataram também que ficaram sabendo do evento uma semana antes, mas que não tinham ideia da quantidade de turistas que viriam à cidade.

Segurança

Em relação à segurança, uma força tarefa entre a Polícia Militar e a Polícia Rodoviária Estadual foi realizada para garantir que a festa transcorresse na normalidade, com fiscalização e orientação do trânsito nas proximidades do evento, bem como a aplicação da equipe canil. Vans e ônibus que transportavam pessoas para o evento também foram vistoriados. Segundo a PM, 8 pessoas foram encaminhadas à delegacia por portarem entorpecentes. Houve apreensão de ilícitos, sendo 80 comprimidos ecstasy, além de outras drogas como cocaína, maconha e metanfetamina encontradas no interior dos veículos abordados. Foi registrada uma ocorrência por embriaguez ao volante, além de 150 autos de infração de trânsito, a grande parte por estacionamento irregular.

Morte 

Durante a montagem do evento, no dia 14 de fevereiro, o eletricista Arlei Braz Rocha, de 39 anos, acabou falecendo após receber uma descarga elétrica. A morte do trabalhador foi repudiada pelo Sindicato de Artistas e Técnica em Espetáculos de Diversões do Paraná (SATED/PR). A nota conjunta também foi assinada pela Associação dos Profissionais e Técnicos de Festas, Shows, Espetáculos e Eventos Corporativos do Paraná (APPTE Pr). O Jornal União entrou em contato com organização da festa para comentar a morte e até o fechamento dessa edição não havia recebido retorno.

Evento foi assunto entre os vereadores

Não bastasse mexer com a rotina do município, a Carnavibe não passou despercebida aos olhos dos vereadores durante a sessão de segunda-feira (21), na Câmara Municipal. Aproveitando seus momentos de fala, alguns vereadores se manifestaram a respeito da festividade. Com exceção do vereador Cleverson Dalprá, que criticou a forma que o evento foi conduzido, a maioria dos membros do legislativo fizeram avaliações positivas da festa. “Pecaram na divulgação, tanto para os munícipes quanto para os vereadores” disse Cleverson em seu comentário, fazendo referência que nem os próprios membros do legislativo municipal foram informados sobre o evento.

Contrapondo a fala de Cleverson, o vereador-presidente, Eugenio Zanona, justificou afirmando que a prefeitura apenas concedeu o alvará, mas que não tinha responsabilidade sobre o evento. “A Prefeitura Municipal não divulgou o evento porque ele era particular e ocorreu em propriedade particular. A divulgação é de responsabilidade dos organizadores. O poder público não fez parceria ou sequer deu apoio ao evento”.

O vereador Rene Henemann defendeu que o evento gerou lucro para o município e considerou que as atividades estão voltando à normalidade. “Já está voltando tudo ao normal, festa de aniversário, casamentos. Temos que começar voltar à nossa rotina”, pontuou.

Anderson Cardoso também manifestou seu parecer. Segundo ele, o momento é de quase pós-pandemia. “O município busca a aceleração econômica, geração de renda e aumento de postos de trabalho. Temos que sair na frente de outros municípios. A gente é favorável a realização de festas de forma organizada, bem pensada, seguindo todos os protocólos sanitários e de segurança”, disse.

A vereadora Carol Mascarenhas salientou que os organizadores cumpriram com as exigências estabelecidas para que a festa acontecesse, e fez menção do decreto Nº 1.711, de 16 fevereiro. “O artigo 2º possui 15 incisos determinando normas de segurança e cuidados, e tudo foi cumprido pelo organizador da festa”. Carol também falou sobre as informações distorcidas propagadas nas redes sociais de que os vereadores teriam aprovado a realização do evento, ela rebateu dizendo que a autorização ou não para festas de grande porte é de autonomia do prefeito.

Em seu pronunciamento, Felipe Veiga lembrou sobre os dois momentos que Campina viveu na pandemia: o fechamento do comércio e a realização da Carnavibe. “Precisamos prestar atenção! Por que em determinado momento o comércio fechou? Porque na época era determinação das autoridades sanitárias, tínhamos UTIs lotadas e não havia mais onde colocar pessoas. A partir do momento que se é possível restabelecer as atividades comerciais, nós restabelecemos as atividades comerciais. O mundo está voltando à normalidade e já é possível a realização de atividades, desde que respeitadas as exigências sanitárias. A empresa responsável provou que estava apta a realizar aquele evento”, disse.

Vai ter mais eventos?

Através de seus canais de comunicação, site e redes sociais, as empresas organizadoras têm demonstrado interesse em promover mais festividades do gênero eletrônico no município, o que coloca Campina Grande do Sul na rota de turismo de mega eventos pelo país. Duas festas já estão programadas para acontecer nos próximos meses: o Pimp Rest em 19 de março, e o Playground Music Festival em 30 abril, todos no mesmo local em que ocorreu a Carnavibe.