Uma grande tragédia em Doutor Ulysses

As pacatas cidades de Doutor Ulysses e Cerro Azul, no Vale do Ribeira, sofreram um grande impacto no final do último domingo, dia 13. Uma caminhonete F 400 que transportava 30 pessoas capotou no km 10 da PR-092, que liga as duas cidades. O resultado do acidente, que aconteceu às 17h15: seis mortos e vários feridos. O veículo caiu em uma ribanceira de 60 metros.

A tragédia poderia ter sido maior se a menina Mirela Chamberlain, de 11 anos, uma das passageiras, não tivesse conseguido pular da carroceria, subir a ribanceira e pedir socorro. Não fosse isso, provavelmente a ajuda só chegaria na manhã do dia seguinte. Seus irmãos – Jéssica, de 13 anos, e José Eduardo, de três anos – e sua mãe também estavam entre os passageiros. Todos sobreviveram.

“Não esqueço a imagem daquela menina loira, de pele bem branquinha, e toda ensanguentada, chegando para pedir ajuda”, conta o cabo Roni Paulo Marchi, do destacamento da Polícia Militar de Doutor Ulysses, que falou com a nossa reportagem. Ele foi um dos policiais que atendeu ao acidente. “A garota conseguiu subir até a estrada e chamar a atenção de um senhor que passava por ali em um Fiat Palio, que ligou para nós. Então, nos dirigirmos para o local do acidente já chamando todo o tipo de ajuda que podíamos”.

“Não esqueço a imagem daquela menina loira, de pele bem branquinha, e toda ensanguentada, chegando para pedir ajuda”.

Marchi conta que todo o atendimento, entre a chegada da equipe e a retirada da última passageira, durou 1h20. “O que eu vi ali parecia uma cena de guerra. Tivemos que quebrar o protocolo e improvisar equipamentos para conseguir retirar todas as pessoas dali. Contamos com a ajuda de dezenas de populares”. Ele lembra, por exemplo, de uma mulher que estava sem o couro cabeludo e de outra estatelada no chão.

“O que eu vi ali parecia uma cena de guerra”.

“O resgate mais difícil foi o da última passageira, que estava debaixo do veículo. Tivemos que cavar a terra com as próprias mãos para retirá-la. Depois, emprestamos peças de roupas de várias pessoas que estavam por ali para embrulhá-la e a colocamos em um dos carros que pararam para ajudar. Tivemos que forrar o veículo com galhos de árvore. A mulher estava em estado de hipotermia e não podia ser transportada de qualquer jeito”. Em seguida, o resgate contou com apoio de um helicóptero da Águia, de São Paulo, da Polícia Rodoviária Estadual, do Corpo de Bombeiros, do Samu e de várias outras equipes. As cidades de Cerro Azul e Doutor Ulysses mobilizaram médicos e enfermeiros do município, que não estavam em serviço no domingo, para prestar auxílio.

“Quando chegamos, já havia quatro mortos e os sobreviventes foram retirados com cordas”.

A enfermeira Patrícia Platner também falou conosco. Ela saiu de Cerro Azul para ir ao local junto com a equipe e diz que chegaram lá às 18h20. Já havia quatro mortos e os sobreviventes foram retirados através de cordas. “Uma tragédia gigantesca”, diz Patrícia.

Os pacientes foram atendidos na casa de saúde Dr. Ênio Costa, de Cerro Azul, que é municipal, e encaminhados aos hospitais de Curitiba: Evangélico, do Trabalhador e do Cajuru. O último desse paciente saiu de Cerro Azul às 21h24.

Quatro vítimas morreram no local, uma no hospital e outra a caminho do hospital. O motorista da caminhonete e um pastor estão entre os mortos.

O prefeito de Cerro Azul, Patrique Magari, disse que “é preciso destacar nesta tragédia que nos abalou, todos os que contribuíram no atendimento de urgência, incluindo a população voluntaária de Doutor Ulysses e Cerro Azul, a PM, o Corpo de Bombeiros, a Defesa Civil, em especial, todos os profissionais de saúde que certamente salvaram vidas através das suas respectivas atuações”. Ele lembra que a maioria não estava em serviço e de maneira voluntária se prontificaram a atender, comparecendo aos locais, demonstrando enorme comprometimento com a função que escolheram. “Para os famílias que perderam entes queridos nossas condolências. Que Deus os abençoe”.

TRANSPORTE IRREGULAR

O grupo voltava de um culto da igreja Assembleia de Deus e era transportado de forma improvisada. Todos estavam acomodados em cadeiras instaladas na caçamba. O veículo estava sem licenciamento e o motorista estava com a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) vencida.

Segundo o cabo Marchi, isso é comum na região. “Nós lamentamos muito quando nos deparamos com essas situações. Temos apenas um destacamento para atender todo o município, que tem uma extensão de estrada bem grande. Nos sentimos impotentes por não conseguir evitar esse tipo de coisa, que sabemos que ocorre com frequência, principalmente em eventos religiosos aos fins de semana”. O acidente aconteceu em um trecho sem asfalto e sinuoso da rodovia.

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