Tudo que você precisa saber sobre a cirurgia bariátrica

Na luta contra a balança, muitas vezes os exercícios, reeducação alimentar e suplementos para a perda de peso não são o suficiente. É aí que surge outra opção: a cirurgia bariátrica, popularmente conhecida como redução do estômago, que é realizada no Brasil desde a década de 80. O Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, é líder em bariátricas no país, com 3.872 operações realizadas em 2018. Esse número compreende 58% dos procedimentos em todo o estado e 36% do Brasil. O índice vem aumentando nos últimos anos devido ao panorama de obesidade. Conversamos sobre o assunto com o cirurgião especialista em cirurgia do aparelho digestivo pela Associação Médica Brasileira (AMB) Pedro Henrique Caron.

“Para começarmos a falar sobre a cirurgia bariátrica, ou ‘gastroplastia’, precisamos entender que ela é um procedimento cirúrgico que visa à perda de peso em pacientes com obesidade mórbida e pacientes com obesidade associada a doenças, também chamada de comorbidade. Além da perda de peso, ela melhora as doenças como hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemia, esteatose hepática (gordura no fígado) e de doenças osteoarticulares, bem como da qualidade de vida em geral”, diz o cirurgião.

A operação é indicada para pacientes com obesidade mórbida ou associada a doenças.

A bariátrica pode ser divida em três tipos: as restritivas, que diminui o tamanho do estômago; as disabsortivas, que reduzem a capacidade do intestino em absorver os nutrientes a partir de um desvio deste órgão; e as mistas, que combinam os dois métodos, redução de estômago e desvio intestinal, sendo que o mais popular é o Bypass Gástrico, que corresponde a 75% dos procedimentos deste tipo realizados no Brasil.

De acordo com Pedro, o procedimento é indicado para pacientes que tenham se submetido à avaliação pelo cirurgião, nutricionista ou nutrólogo, psiquiatra ou psicóloga, cardiologista e anestesiologista. Isso ocorre para que o candidato à cirurgia entenda sobre a técnica cirúrgica a que será submetido, as mudanças de hábitos necessárias e os riscos de complicações. “Além disso, é avaliado o Índice de Massa Corporal (IMC), que deve ser igual ou superior a 40 kg/m²  ou entre 35,0 e 39,9 kg/m² associado a comorbidades que justifiquem a necessidade da cirurgia”.

Segundo ele, pacientes com idade entre 16 e 18 anos podem fazer a cirurgia bariátrica, desde que venham com um histórico de acompanhamento com pediatra e endocrinologista, ou alguma doença associada. “Da mesma forma, idosos que sofrem com o excesso de peso e com as doenças crônicas associadas à obesidade, também podem fazer o procedimento cirúrgico e os riscos são menores se a cirurgia for feita até os 65 anos de idade, porém não existe uma idade máxima para a realização da cirurgia”.

Ainda conforme o médico, a cirurgia bariátrica, como qualquer outra intervenção cirúrgica, e por ser um procedimento complexo, pode ter complicações ou, até mesmo, levar à morte. “Perfuração, sangramento interno, vômitos, infecções, fístula e embolia pulmonar são alguns dos riscos”.

PÓS-OPERATÓRIO

No pós-operatório, é necessária uma verdadeira mudança nos hábitos de vida. “Existe uma restrição na quantidade de alimentos que o paciente deve ingerir devido à redução do estômago. O paciente também deve evitar alimentos muito calóricos. Além disso, deve realizar atividade física frequentemente, fazer uso de vitaminas diariamente e manter acompanhamento com a equipe multidisciplinar pelo resto da vida”.

Uma vez que a ingestão de comida diminui bastante em função da redução do estômago, o corpo pode ficar desnutrido. “O paciente passa a comer uma quantidade bem menor, e, às vezes, cai também a qualidade da alimentação. Esse quadro pode induzir à carência de macro ou micronutrientes, como vitaminas e minerais, gerando vários problemas de saúde como, por exemplo, anemia e queda dos cabelos”.

Em torno de 10% dos pacientes voltam a ganhar peso após o procedimento.

O cirurgião lembra que após a cirurgia bariátrica, em torno de 10% dos pacientes voltam a ganhar peso. “Popularizada como reganho de peso, na verdade o nome correto é recidiva da obesidade, uma vez que a obesidade é considerada uma doença crônica. A recidiva da obesidade é multifatorial, pode ocorrer por problemas anatômicos (na cirurgia) ou por problemas comportamentais, ou seja, uma alimentação inadequada, problemas emocionais, falta de atividade física ou excesso de ingesta alcoólica”.

ATENDIMENTO

No Hospital Angelina Caron, que é líder de cirurgias bariátricas em todo o Brasil, pelo encaminhamento do Sistema Único de Saúde (SUS), são atendidos pacientes domiciliados no Paraná. “Há alguns casos em que os pacientes podem vir de outros estados, encaminhados pelo SUS por meio da Central Nacional de Regulação de Alta Complexidade (CNRAC) do estado de origem. Fora os particulares e por convênio, que vêm de vários lugares e até de outros países”, afirma Pedro Caron.

 


Quem não pode realizar a operação?

• Pessoas que apresentam limitação intelectual significativa: quando o paciente não consegue compreender a magnitude da operação ou dá indícios que não irá seguir as recomendações do pós-operatório. Também não é recomendado caso ele não possua um suporte familiar adequado.

• Pessoas com transtornos psiquiátricos: caso o paciente apresente algum quadro clínico que não pode ser controlado, a contraindicação é absoluta. Casos como depressão e ansiedade só deverão ser liberados se estiver comprovado a capacidade da pessoa compreender e seguir a risca as orientações médicas.

• Viciados: alcoólatras e pessoas que tencionam ao alcoolismo não devem realizar a cirurgia, assim como os usuários de drogas ilícitas.

• Pacientes menores de 16 anos: não é recomendada, pois o corpo ainda está em desenvolvimento. A cirurgia é recomendada entre 16 e 18 anos sempre que houver indicação e consenso entre a família ou o responsável pelo paciente e a equipe multidisciplinar.

• Pessoas portadoras de doenças genéticas: se o paciente tiver alguma doença genética que pode gerar complicações durante a cirurgia ou no pós-operatório.

• Paciente com doença cardiopulmonar grave.

 


Vida nova

Para o servidor público municipal Carlos Eduardo Pereira, o Kadu, de 30 anos, a cirurgia bariátrica representou uma mudança de vida. Ele passou pelo procedimento há três anos. “Não é fácil ser obeso. Tudo melhorou, desde coisas simples como virar na cama e colocar tênis. A saúde é outra, a disposição e a autoestima também. Ter o prazer de vestir a roupa que você quer, por exemplo, é algo do qual o sobrepeso te priva”.

Ele optou pela bariátrica depois de muitas tentativas frustradas de emagrecer e porque estava com complicações de saúde. “Quando passei pelo procedimento estava com 130 quilos, cheguei a 67 e, hoje, meu peso é estabilizado em 78 quilos, o ideal para a minha idade e altura”.

Kadu afirma que o único arrependimento é o de não ter feito a bariátrica antes. “Eu tinha preconceito contra a cirurgia, essa é a verdade. Mas, com o apoio da minha família foi um procedimento bem sucedido e, hoje, graças a Deus, e ao zelo que tive no pós-operatório, desfruto de uma qualidade de vida infinitamente melhor”.

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